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Como surgiram os Oráculos

  • Foto do escritor: Fernanda Bienhachewski
    Fernanda Bienhachewski
  • 9 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A prática oracular, o ato de buscar conhecimento do futuro ou saber qual é a vontade dos deuses e espíritos através de um intermediário ou método ritualístico, é uma das manifestações mais antigas e persistentes da experiência humana. Suas raízes se confundem com o próprio surgimento da consciência humana e partem da necessidade de lidar com o desconhecido e as incertezas. O oráculo nasce da convicção de que existe uma ordem cósmica ou uma realidade oculta que pode ser acessada para fornecer orientação e conselhos.


Práticas xamânicas
Práticas xamânicas

Os primeiros relatos remontam aos povos originários que, através de práticas xamânicas, entravam em estados alterados de consciência (induzidos por técnicas de respiração, som ou substâncias) para se conectar com ancestrais, espíritos da natureza ou divindades, servindo como ponte entre o mundo material e o sagrado.


Com o desenvolvimento das primeiras grandes civilizações, a adivinhação e o oráculo se tornaram práticas mais sistematizadas na vida pública e privada. Na Mesopotâmia Antiga, berço de sumérios e babilônios, a observação de presságios estava altamente desenvolvida, com a análise do céu e a inspeção de vísceras de animais sacrificados. Acreditava-se que os deuses escreviam sua vontade em eventos cotidianos. No Antigo Egito, os oráculos estavam frequentemente associados aos templos, onde os sacerdotes interpretavam as respostas divinas através da movimentação de barcas sagradas ou com a presença de animais auspiciosos.


Outra forma oracular fundamental que evoluiu para um sistema sofisticado foi a própria Astrologia. Diferente da simples observação de presságios celestes (como um cometa ou eclipse), a astrologia sistemática surgiu na Mesopotâmia (principalmente na Babilônia) e no Egito Antigo, onde a observação e o registro dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas eram feitos com precisão matemática.


Manuscrito antigo de Astrologia
Manuscrito antigo de Astrologia

A crença central era a da reciprocidade cósmica – a ideia de que existe uma harmonia e correspondência inseparável entre os fenômenos celestes e os eventos terrestres. Inicialmente, essa leitura era mundana, focando em presságios para o reino e seus líderes (previsões de colheitas, guerras ou inundações). Contudo, foi na Grécia Helenística que se desenvolveu a astrologia de natividades (o famoso "mapa natal"), transformando-a em uma ferramenta oracular poderosa para indivíduos. Ela se tornou um meio de decodificar a vida de uma pessoa, traduzindo a configuração do céu no momento exato do nascimento como um reflexo de seu destino, sendo amplamente consultada por várias esferas da sociedade.



Osteomancia
Osteomancia

Outras formas de adivinhação antigas e difundidas globalmente são a Osteomancia (adivinhação por meio de ossos) e a inspeção de vísceras, conhecida como Extispício. Esta última, conforme mencionado, era vital na Mesopotâmia, mas suas raízes são mais profundas.


A Osteomancia, especificamente usando escápulas (omoplatas) de animais, remonta à Idade do Bronze na China e também era praticada na América do Norte, Europa e Sibéria. Nesses rituais, os ossos eram limpos, aquecidos ou queimados, e as rachaduras ou padrões resultantes eram interpretados como mensagens diretas de ancestrais ou deidades. Acredita-se que essa prática de "leitura" de padrões em superfícies rígidas (como ossos e cascos de tartaruga) foi uma das precursoras do complexo sistema oracular do I Ching na China. Essa conexão direta com o sacrifício de um ser vivo dava ao oráculo extrema seriedade.



O Oráculo de Delfos
O Oráculo de Delfos

Porém foi durante a Grécia Antiga que surgiu um dos mais famosos e influentes oráculos da história. O Oráculo de Apolo em Delfos foi bastante respeitado e procurado, funcionando entre os séculos VII a.C. e III d.C. Ele atendia a governantes, generais e cidadãos comuns (que muitas vezes peregrinavam longas distâncias) para consultar a sacerdotisa de Apolo.


No ritual, a sacerdotisa entrava em transe e proclamava profecias enigmáticas. Além de Delfos, outros locais como o Oráculo de Zeus em Dodona também detinham grande prestígio, evidenciando a importância do conselho oracular na tomada de decisões políticas, militares e pessoais dos gregos.



Prática de I Ching
Prática de I Ching

Outro oráculo importantíssimo foi criado pelos chineses, o I Ching, um dos mais antigos e complexos sistemas oraculares que se tem notícia. O I Ching utiliza varetas ou moedas para gerar hexagramas interpretativos.


Já na Índia antiga praticava-se a Quiromancia há mais de quatro milênios. A quiromancia baseia-se na convicção de que as linhas, formas e montes da palma da mão são um microcosmo do destino e da personalidade de um indivíduo, refletindo sua saúde, longevidade e suas tendências emocionais e mentais.



Percebe-se, portanto, que a prática oracular era comum em diversas partes do globo terrestre, pois atende a uma necessidade humana fundamental: a de lidar com a incerteza e a angústia existencial. Em um mundo imprevisível, o oráculo oferece não apenas uma previsão ou profecia, mas uma estrutura narrativa e um senso de propósito para os eventos da vida. Ele funciona como um método de comunicação ampliada, traduzindo o caos do cotidiano em uma linguagem simbólica e interpretável, o que possibilita a reflexão e a tomada de decisão.


Estudo de Quiromancia
Estudo de Quiromancia

Ao conectar o indivíduo a uma fonte de sabedoria que transcende o eu, a prática oracular reafirma a esperança, fornece consolo e permite que as pessoas se reposicionem e reflitam sobre seu próprio destino, transformando a passividade em ação consciente.


E é por isso que os oráculos são, até os dias de hoje, uma parte importante e necessária da experiência espiritual e cultural da humanidade.














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